“A Técnica Alexander é antes de tudo um instrumento de auto trabalho. Artistas, como, atores, cantores, bailarinos e músicos sabem o quanto a qualidade do seu trabalho depende do treinamento que eles desenvolvem diariamente com seu corpo, com a sua voz, ou com seu instrumento musical. Ao trabalhar com os hábitos adquiridos de interferência nos mecanismos de equilibrio e coordenação, a técnica, oferece ao artista um refinamento na percepção de si mesmo e meios para aprimorar a sua arte com maior liberdade de escolhas sobre o caminho pelo qual ele quer se desenvolver.
O ator por exemplo, necessita estar consciente do seu principal instrumento: ele mesmo. É através do uso de seu corpo, de sua voz, de sua emoção, que o ator atribui vida à sua personagem. Para poder escolher, necessita estar livre sem que hábitos interfiram nas suas escolhas”. É o que explicam os brasileiros, conhecedores do assunto, Roberto Reveilleau e Valéria Campos, que estão constantemente em Portugal, nas cidades do Porto e Lisboa, aplicando e divulgando a técnica, que tem como objetivo principal uma reeducação psicomotora, ensinando como corpo e mente podem funcionar juntos no desempenho de todas as atividades diárias ajudando a detectar e a reduzir o excesso de tensão, promovendo harmonia e bem-estar. Instituições de ensino como universidades e escolas de teatro vêm incluindo a Técnica Alexander dentro de seus currículos como base para uma exploração criativa, aperfeiçoamento da saúde, clareza mental, compreensão e expansão do potencial humano. Na Inglaterra, a Técnica Alexander é obrigatória no currículo de formação do ator, e no Brasil, seguindo uma tendência mundial, ela tem sido aplicada aos atores durante o processo de ensaio, trazendo maior economia e precisão nos movimentos, assim como possibilitando ao ator maior liberdade para criar.
Frederick Matthias Alexander (1869-1955) foi um homem a frente do seu tempo. No final do século XIX desenvolveu um trabalho revolucionário sobre o desenvolvimento do ser humano, trabalho este que, ao longo dos anos, atraiu diversas personalidades da ciência, da educação e das artes. Obteve apoio de várias personalidades de sua época, como: o escritor Aldous Huxley, o dramaturgo George Bernard Shaw, o prêmio Nobel em fisiologia Sir Charles Sherrington, o antropólogo Raymond Dart, o filósofo e educador John Dewey, entre outros. Podemos dizer que Alexander foi um pioneiro no ocidente a desenvolver um trabalho em que o homem é visto como unidade psico-física. Alexander acreditava que seu trabalho serviria para as gerações futuras como um instrumento de aperfeiçoamento do ser humano, através de uma educação integral em que os aspectos físicos, emocionais e mentais estariam envolvidos.
Este trabalho se iniciou quando, em sua juventude, Alexander tornou-se um renomado ator shakespeareano na Austrália e Nova Zelândia, e seus recitais tornaram-se populares. Sua saúde, que já era frágil desde a infância, foi piorando em função de suas constantes apresentações teatrais: problemas respiratórios e rouquidão foram se tornando uma constante. Sem sucesso com os médicos e sem saber como solucionar esses problemas, Alexander iniciou uma pesquisa usando a si mesmo como objeto de observação. Percebeu, então, que o modo como usava o seu corpo e pensamento afetava diretamente o funcionamento geral do organismo - seus problemas de voz e respiração eram apenas consequências de um desequilíbrio total de seu corpo. A partir daí, desenvolveu uma prática com base na unidade psico-física do Homem, hoje chamada de Técnica Alexander.
Atualmente, mesmo sendo desconhecido do grande público, seu trabalho vem sendo aplicado em diferentes instituições de ensino ao redor do mundo. Diversas terapias, processos de auto-conhecimento e técnicas corporais existentes hoje, tiveram a influência dos princípios desenvolvidos por Alexander. Quando se entra em contato com esta técnica de trabalho é muito comum a surpresa sobre o pioneirismo, a simplicidade e a atualidade do trabalho.
Roberto e Valéria, que pela terceira vez estão em Portugal dando aulas individuais e workshops, afirmam que não há professores especializados nesta técnica por aqui. Eles dizem também, que a receptividade dos portugueses tem sido excelente: “há muita gente interessada neste trabalho, pois existem aqui, livros sobre a técnica em português, e também, pelo fácil acesso aos outros países da Europa onde o trabalho é mais conhecido”. Em 1992, graduaram-se como professores da técnica em Londres, numa das mais antigas escolas de formação para professores, a Constructive Teaching Centre. Em Portugal costumam realizar suas palestras e workshops na Escola Superior de Música de Lisboa, na Faculdade de Motricidade Humana, e em Fevereiro deste ano, na Escola Superior de Teatro e Cinema, além das várias pessoas interessadas nos atendimentos individuais, que acontecem num consultório de psicologia no centro de Lisboa.
Apesar de ser pouco conhecida em Portugal, é um método de reeducação prático e simples, aplicado a mais de 100 anos em vários países do mundo. Não é um tratamento e não deve ser identificado como técnica de relaxamento, massagem ou expressão corporal. É uma prática que resulta em um melhor funcionamento dos reflexos naturais do organismo trazendo diversos benefícios para a saúde, como, a prevenção de problemas posturais e dores musculares, maior liberdade de movimento através do aperfeiçoamento da coordenação e equilíbrio do corpo, respiração mais livre, além de bem-estar físico e mental.